domingo, 7 de abril de 2013

A BÍBLIA DO FUTURISMO FÁUSTICO



Em 1988, o fim do mundo não estava marcado para dezembro de 2012. Não vívíamos sob a frebre pop do calendário maia, tão difundido nas redes internéticas no segundo semestre do ano passado. No final da segunda metade dos anos 80 a gente ficaria com ar de bobo se alguém perguntasse mesmo o que danado é internet. O tempo era outro - o viés, também. O que nos fazia babar de excitação era um certo futurismo fáustico, essa condenação a priori - e existencialmente muito atrativa - de qualquer progresso técnico que nos esmagasse a auto-indugenciada humanidade. Se o sujeito era intelectualmente muito sofisticado, ia de "Blade Runner" - ótima pedida. Se era assim-assim, podia se virar com James Cameron mesmo, que a satisfação mediana estava garantida com este "O Exterminador do Futuro 2". 

Era raso, ligeiro, ágil, cultura liquidificada, videoclipe impaciente mas era também a experiência daquela época. E continha uma série de minitruques internos que tornavam a sessão menos truculenta. Schwaznegger era a persona perfeita para a  inexpresssividade requisitada do vilão do primeiro filme que virou herói no segundo - e aí mesmo, na inversão marota decorrente do sucesso da primeira produção da série estava uma de suas graças. Linda Hamilton ficou sendo um rosto marcante dos anos 80, na vertente mais descerebrada da época, em raia paralela à de uma Isabela Rosselini - ou de Sean Young em "Blade Runner", pra  manter o paralelismo dos exemplos.  

James Cameron espertamente bebia de fontes já clássicas na época, jogando novas camadas de tinta sobre a iconografia estabelecida. Mesmo que tal iconografia fosse a da contestação pura (e permitida, ok). Veja-se por exemplo como seu robotizado motoqueiro remete à dupla contracultural Dennis Hopper e Peter Fonda em "Easy Rider (Sem Destino)"; ao mesmo tempo em que coloca essa imagem do motoqueiro impávido na estrada do cinema a serviço de outro tipo de narrativa. O cineasta dos anos 80 dilui, com muito charme, o totem da rebeldia que o cinema construíra duas décadas antes. Vai-se o charme, fica a banalização - mas, atenção, mas, é bom dizer, essa química funciona no espaço de diversão tipo pesadelo futurista que o segundo "Exterminador" oferece. Os cinemas se cruzam, se abastecem uns dos outros, se destroem no momento mesmo em que parecem se homenagerar. Onde colocar um Tarantino nessa equação? Difícil: pra ver que rever um filme que o tempo vai tornando cult não é algo tão inofensivo assim. Hay que pensar, sem perder la magia. 



 Sinfonia das caldeiras

Até porque, quando está no plano mais coerente com sua narrativa, "O Exterminador do Futuro 2" produz uma sequencia que tira humanidade das mais opacas das máquinas. É todo o desfecho do filme, quando os guerrilheiros antecipados de um futuro condenado tentam desativar o novo cyborg. Ele se espatifa em lascas de aço banhadas em nitroglicerina e parece definiticamente eliminado: qual nada, tais fragmentos desidratados de vida de repente convertem-se em aquosidade oleosa que aos poucos vai lhe devolvendo a vida de matéria meio aço, meio líquida. Tudo isso filmado nas entranhas de uma siderúrgica, entre galões de aço derretido, faíscas de metal incandescente, ruídos de barras se entrecruzando, o alaranjado dominante dando visibilidade ao calor, a algaravia de uma fábrica, a anti-sinfonia das caldeiras. Há uma poesia própria ali, e muito oportuna à aventura contada. 


Pra quem não viu, não lembra ou não está interessado no filme esta pode ser uma porta de acesso. Tudo bem que está no final, obrigando o curioso a percorrer todo o filme, inclusive sujeito a acesso de riso brazuca quando descobre que o nome do empreendimento por trás do fim do mundo para os humanos se chama "skynet". A internet nem estava no horizonte do cotidiano mundial, como hoje, e já era tão involuntariamente demonizada. Bom, pra quem quer matar a saudade dos tempos em que a gente não tinha um tuíte ou facebook pra chamar de seu ou simplesmente pra odiar, temos um último apelo: rever Arnô e Suas Negas despachando o bordão que também tornou o filme celebremente pop por uns bons tempos: "Hasta la vista, baby". 

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