segunda-feira, 13 de maio de 2013
Terror em quadrinhos
Direto dos porões dos mais sombrios castelos da Transilvânia, sob camadas de poeira e medo, eis que surge o histórico número 1 da revista "A Tumba de Drácula", lixo cultural de primeira editado nos anos 70 pela não menos poluída mas sempre curiosa e instigante Bloch Editores.
domingo, 12 de maio de 2013
Tudo em família
Entro em casa animado e convoco de imediato Bernardo e Cecília, minha turma de iniciados no mundo fascinante das séries de tevê. Trago da rua exemplares do que de mais interessante posso oferecer a eles: três DVDs que condensam em graus de qualidade técnica variável - mas de pontencial de nostalgia garantida - os seriados "Perdidos no Espaço", "A Família Robinson" e "Os Monroes". Pela alma de todos os persongens de desenho animado que já partiram dessa para uma melhor, alguém aí fora, além de mim, ainda lembra de "Os Monroes"?
Pergunto porque nem eu mesmo lembrava até o momento em que, incauto fuçador de prateleiras de DVDs promocionais, tive os dedos capturados pela cópia de um único e precioso episódio da série que cansei de assistir nas tardes da finada TV Tupi - para cuja alma invoco as bênçãos divinas tanto quanto para as dos desenhos mortos. A conexão entre o que os olhos viam na prateleira e o que o cérebro buscava nos arquivos do miolo foi de tal combustão que só levou um micromilésimo de segundo para juntar o nome à pessoa: "Os Monroes", então eram eles mesmos? Como eu havia esquecido?
Você também esqueceu? Tente relembrar, eu ajudo sua memória ingrata de telespectador distraído. "Os Monroes" era mais um seriado situado no velho oeste americano, sobre um grupo de irmãos que perderam os pais na viagem rumo à terra sem lei daquele tempo e lugar. Os astros, portantos, eram os filhos: um rapaz e uma mocinha, mas os garotos crescidos e uma menorzinha. Com eles vivia um índio com aquela aparência típica de índio-americano-de-seriado-de-tevê, contraparente do Mingo de "Daniel Boone". E quando eles iam à cidade mais próxima para comprar provisões, tudo podia acontecer.
Como acontece no episódio único que este DVD de origem absolutamente suspeita e desconhecida reproduz com qualidade de imagem sofrível - bem pior do que uma tevê analógica da década de 70 em cidade de retransmissora sempre em conserto. Malfeitores tentam se aproveitar da garota Monroe, que é defendida pelo índio que, claro, passa a ser perseguido pelos malfeitores. Mas também passa a ser defendido por um militar desconhecido de todos com quem o índio também não simpatiza. É um roteiro bem armadinho, com dois grupos de perseguidores tentando dar cabo do índio ao mesmo tempo e por motivos diferentes - um deles menos nobre do que todos gostariam. O índio precisa sumir do mapa etc etc. Mas prevalece, ao final, a fidelidade dos Monroes ao índio e deste a eles.
Prevalece, como é comum em todos esses seriados, a noção de família - independente de serem os Monroes, os Jatsons, os Perdidos no Espaço, os Flintstones ou os Robinson. A estrutura dramática de tantas histórias que nos abasteceram as tardes de aventura, suspense, efeitos especiais, conflitos, enfrentamentos e perigos era sempre, no fundo, uma reafirmação da necessidade da coesão do grupo, do respeito entre seus integrantes, da busca de denominadores comuns.
Fosse uma ficção científica de nave espacial feita com isopor ou um velho oeste filmado com fundo falso de pico nevado, para além do gênero reafirma-se episódio após episódio o mote moral da convivência familiar. E daí para o povo de "Dallas" ou para "Os Sopranos" - cuja primeira temporada estou vendo em DVD com o atraso regulamentar de sempre - mudava apenas a forma de abordagem e a intensidade do pepino. Se alguém quiser invocar algo diverso tem que ajoelhar e rezar para outra religião televisiva, do tipo David Lynch e seu "Twin Peaks", por exemplo, mas a regra geral tem sido aquela.
Não por acaso, quando espalhei os três DVDs sobre a mesa - lembrem-se: Perdidos no Espaço, A Família Robinson e Os Monroes - Cecília fez aquela cara de quem vai elaborar um comentário esperto e tascou: "Mas é tudo de família, os três?". Yes, garota: desde os tempos da tevê a válvula as famílias - ou pelo menos seus representantes mais novos - gostam de se ver refletidas em outras famílias, de vários lugares e realidades, além de metidas em outros tipos de encrenca.
Clique aqui para assistir ao episódio de "Os Monroes" na íntegra.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
LUZES, CÂMERA, SÍNTESE
Todos os westerns, do mais elaborado ao mais rasteiro, num só. Todos os filmes dirigidos e estrelados por Clint Eastwood, dos mais antipáticos aos mais fluentes, num só. Todo o cinemão americano, da zona de conforto às eras da contestação, num filme só.
domingo, 7 de abril de 2013
EDIÇÃO ESGOTADA
A memória ficou na poeira da estrada ou nos fragmentos do asfalto, mas a este esgotado "Crônicas de Motel", um livro que é a cara dos anos 80, lembro que deve muito o roteiro de "Paris, Texas", o filme. Pra quem não ligou o nome à pessoa, Sam Shepard é o roteirista do filme de Wim Wender, pra se ver que o alemão teve a ajuda de mão americana ao desnudar as emoções do país estrangeiro. Mas a mão americana de Shepard, a gente percebe, vem de outra "América" - uma América mais afinada com aquela que João Moreira Salles mostrou numa série de documentários exibidos nos mesmos anos 80 pela então TV Manchete; uma América mais John Steinbeck, uma América que é menos espetáculo e mais contemplação. As crônicas do livro remetem a esse país e a essas pessoas e suas relações - é o que ficou. E falando dele eu lembro, a título de similaridade, de um outro filme "estrangeiro" feito nos EUA, o belo "Um Beijo Roubado", de Kar War Wong. Bem, "Crônicas de Motel", o livro, deve valer uma fortuna nos sebos, caso você encontre uma das raras edições que a máquina registradora do tempo não triturou. Ah, sim, Sam Shapard também foi o poeta que decantou em versos o rosto sem maquiagem da sua mulher naqueles tempos, a atriz Jessica Lange (que está com ele no doloroso docudrama "Frances", mas este é assunto pra um outro post).
SESSÃO BAÚ DE CINEMA
Assista, rememore, volte a burilar sua sensibilidade e a cutucar sua emoção diante de "Paris, Texas", quando Wim Wenders mostrou aos americanos o que eles ainda podiam fazer com sua paisagem física e sentimental. Um western da paixão, um road movie que viaja pelas vias internas do ser humano, um vôo que se faz sem tirar o pé do chão do deserto de nossas almas. Nastassja Kinski mais Nastassja Kisnki do que jamais fora possível e Harry Dean Station como nunca o cinema o projetara e projetou: desde então, ele ficou sendo Travis. Não importa o filme em que apareça (quase sempre no papel de ninguém), a gente salta da poltrona e aponta o dedo: Olha, lá, quem está aí... Travis!". E a música de Ry Cooder é um chiclete cult que não desgruda dos tímpanos.
RARIDADE
Capa do número 1 de "Tex", uma das publicações mais valorizadas do mercado de quadrinhos do meu tempo - imagino que, para os que continuam aficionados desta forma de comunicação,ainda esteja no mesmo posto. Diziam que em Caicó (RN) vários leitores tinham a revista tão procuradas. Diziam até que era possível encontrar pra vender. Só não diziam o preço. Nunca consegui. Melhor assim, vou me conformando, porque ficou a mística desse primeiro número, depois republicado em segunda edição, mas no interior até essa facilidade não era tão fácil assim. Talvez seja por isso que conservo até hoje o número 1 de outro heroi da época, Zagor. E, em termos de raridades do célebre ranger do mundo dos quadrinhos, tenho também guardada a igualmente histórica edição "O Casamento de Tex". Fica pros próximios posts desta "Arca do Sopão".-
A BÍBLIA DO FUTURISMO FÁUSTICO
Era raso, ligeiro, ágil, cultura liquidificada, videoclipe impaciente mas era também a experiência daquela época. E continha uma série de minitruques internos que tornavam a sessão menos truculenta. Schwaznegger era a persona perfeita para a inexpresssividade requisitada do vilão do primeiro filme que virou herói no segundo - e aí mesmo, na inversão marota decorrente do sucesso da primeira produção da série estava uma de suas graças. Linda Hamilton ficou sendo um rosto marcante dos anos 80, na vertente mais descerebrada da época, em raia paralela à de uma Isabela Rosselini - ou de Sean Young em "Blade Runner", pra manter o paralelismo dos exemplos.
James Cameron espertamente bebia de fontes já clássicas na época, jogando novas camadas de tinta sobre a iconografia estabelecida. Mesmo que tal iconografia fosse a da contestação pura (e permitida, ok). Veja-se por exemplo como seu robotizado motoqueiro remete à dupla contracultural Dennis Hopper e Peter Fonda em "Easy Rider (Sem Destino)"; ao mesmo tempo em que coloca essa imagem do motoqueiro impávido na estrada do cinema a serviço de outro tipo de narrativa. O cineasta dos anos 80 dilui, com muito charme, o totem da rebeldia que o cinema construíra duas décadas antes. Vai-se o charme, fica a banalização - mas, atenção, mas, é bom dizer, essa química funciona no espaço de diversão tipo pesadelo futurista que o segundo "Exterminador" oferece. Os cinemas se cruzam, se abastecem uns dos outros, se destroem no momento mesmo em que parecem se homenagerar. Onde colocar um Tarantino nessa equação? Difícil: pra ver que rever um filme que o tempo vai tornando cult não é algo tão inofensivo assim. Hay que pensar, sem perder la magia.
Sinfonia das caldeiras
Até porque, quando está no plano mais coerente com sua narrativa, "O Exterminador do Futuro 2" produz uma sequencia que tira humanidade das mais opacas das máquinas. É todo o desfecho do filme, quando os guerrilheiros antecipados de um futuro condenado tentam desativar o novo cyborg. Ele se espatifa em lascas de aço banhadas em nitroglicerina e parece definiticamente eliminado: qual nada, tais fragmentos desidratados de vida de repente convertem-se em aquosidade oleosa que aos poucos vai lhe devolvendo a vida de matéria meio aço, meio líquida. Tudo isso filmado nas entranhas de uma siderúrgica, entre galões de aço derretido, faíscas de metal incandescente, ruídos de barras se entrecruzando, o alaranjado dominante dando visibilidade ao calor, a algaravia de uma fábrica, a anti-sinfonia das caldeiras. Há uma poesia própria ali, e muito oportuna à aventura contada.
Pra quem não viu, não lembra ou não está interessado no filme esta pode ser uma porta de acesso. Tudo bem que está no final, obrigando o curioso a percorrer todo o filme, inclusive sujeito a acesso de riso brazuca quando descobre que o nome do empreendimento por trás do fim do mundo para os humanos se chama "skynet". A internet nem estava no horizonte do cotidiano mundial, como hoje, e já era tão involuntariamente demonizada. Bom, pra quem quer matar a saudade dos tempos em que a gente não tinha um tuíte ou facebook pra chamar de seu ou simplesmente pra odiar, temos um último apelo: rever Arnô e Suas Negas despachando o bordão que também tornou o filme celebremente pop por uns bons tempos: "Hasta la vista, baby".
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